Fragmentos de Quintal conta a história de um espaço: o quintal. Nesse Quintal, tem uma árvore, galinhas, um varal com roupas secando, coisas velhas, pedrinhas e folhas secas. Nesse quintal mora uma Galinha. Nesse quintal brinca um Menino.

O quintal, nessa história, não é somente o terreno com jardim ou terra batida que fica atrás da casa onde vivi o Menino, mas o espaço que se transforma em cenários de suas brincadeiras.

Nesse quintal o tempo não pode ser medido pelo relógio, uma vez que uma hora poderia significar vários anos ou apenas alguns segundos, dependendo das fantasias vividas pelo menino e sua companheira a Galinha. Nesse quintal nada era o que era, um caixote se transformava em um foguete, um pneu em brinquedos acrobáticos, pedras e folhas em bichos de fazenda.

Mas um dia, o menino se muda e o quintal transforma-se em um espaço urbano.

Poeticamente, o espetáculo criado para ser encenado com bonecos fala de um espaço que vem desaparecendo dos centros urbanos cada vez mais impessoais e das nossas lembranças cada vez mais apagadas.

Fragmentos de Quintal é uma história recolhida das lembranças de pessoas que um dia brincaram em quintais e porque temos medo de não mais no lembrarmos dessas felicidades vividas, a Cia Circo de Bonecos criou Fragmentos de Quintal.

TEASER

 

FICHA TÉCNICA

ROTEIRO, DIREÇÃO E ARGUMENTAÇÃO:

  • Claudio Saltini

PRODUÇÃO:

  • Teka Queiroz

CENÁRIOS/BONECOS/ADEREÇOS:

  • Claudio Saltini

ELENCO:

  • Claudio Saltini
  • Teka Queiroz
  • Patricia Helen

TEMPO DE MONTAGEM/DESMONTAGEM:

  • 40 minutos

DURAÇÃO:

  • 43 minutos

VISIBILIDADE:

  • Até 120 pessoas

FAIXA ETÁRIA:

  • A partir de 3 anos

TEMA:

  • A transformação de espaços urbanos

CONTEÚDO:

  • Brincadeiras Infantis

GÊNERO:

  • Teatro para Todo Público

MODALIDADE:

  • Teatro de Bonecos

 

CRÍTICA

Por Dib Carneiro Neto

Fragmentos de Quintal, com a consagrada Cia. Circo de Bonecos e com roteiro, argumento e direção de Claudio Saltini, é outro acerto total e completo, sem revirar o palco de cabeça para baixo, sem a obsessão por inovar. Ao contrário, é uma atração muito delicada e lembra demais a Cia. Truks de Animação do início da carreira, quando o próprio Saltini ali estava, como um dos fundadores.

O título é ótimo, muito apropriado para o que você vai ver em cena. São fragmentos da infância de um menino em seu quintal. Nada mais do que isso, mas como fica grande na abrangência de um tema que sempre nos cala fundo! Esses fragmentos do título compõem a estrutura do espetáculo, feito de pedacinho a pedacinho, de memória a memória. Curtos blecautes separam as cenas ou as séries de cenas. Muito bonita essa estrutura do espetáculo. Promove a calma, combate a ansiedade.

A trilha também é encantadora: começa e acaba com Villa-lobos, e não precisaria de mais nada, mas o miolo é todo recheado de canções brasileiras, um cancioneiro bem recolhido pela companhia, todo instrumental, com bons momentos da MPB lírica de raízes.

Fragmentos, da cia. Circo de Bonecos, é, portanto, mais um exemplo de “vamos fazer o que sabemos fazer, não vamos inventar a roda a cada vez”. Vamos falar de uma coisa particular para atingir o universal! Nunca será demais falar das saudades do lugar onde a gente brincava quando era criança e que, para a esmagadora maioria das pessoas, são quintais que viraram construções. Antigas áreas verdes hoje invadidas por prédios. Quantas e quantas vezes o teatro, o cinema e a literatura já falaram disso? Mas, pergunto de novo, e daí? Olha só que peça linda, olha que delicadeza, olha que assunto tocante.

A cada gesto brusco do menino-boneco, a gargalhada das crianças na plateia é uma coisa empolgante, espontânea. O que mais pode querer um artista? E olha que simplicidade de cenas: menino empinando pipa, fazendo ginástica em cima do pneu velho, brincando de esconde-esconde com uma galinha, tudo muito lindo, sem arroubos e pirotecnias. Ah, há um texto final muito bonito de um pai falando ao filho. Lá pelo finalzinho da peça, se ouve a mãe chamando o menino pelo nome, para ele voltar pra dentro de casa, tomar banho, jantar e dormir. Quantos e quantos de nós não ouvimos a mãe gritar: ‘Já pra dentro, menino!’ E é nessa hora que a gente fica sabendo o nome do garoto. E agora suportem o meu spoiler, pois, como eu já disse antes, não é uma peça de revelações, e sim de sensações, e essas não lhe serão tiradas por nada que você leia aqui antes sobre a peça.

O nome do menino é… Manoel, em homenagem a ninguém menos do que o saudoso poeta mato-grossense Manoel de Barros, um dos maiores ‘cantadores’ do tempo dos quintais. O texto final é todo tirado das coisas lindas que Manoel de Barros versejou sobre brincar. Mais uma vez a Circo de Bonecos acertou e mais uma vez precisa de uma longa temporada, precisa ir de teatro a teatro, de cidade a cidade, de festival a festival. Mesmo que felizmente os quintais e as brincadeiras ao ar livre ainda resistam por muitos lugares desse Brasilzão profundo, a poesia do espetáculo é capaz de encantar também aos que ainda vivem uma infância saudável e não foram prejudicados pela força da grana que ergue e destrói coisas belas.

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